Papa Francisco critica desigualdade agravada pela pandemia e pede fim de “dogma neoliberal”

O pontífice reivindicou o direito de todo ser humano de viver “com dignidade e desenvolver-se plenamente”. 

Em sua encíclica divulgada no último domingo (acesse aqui a íntegra em português), o papa Francisco pediu o fim do “dogma liberal” e reivindicou o direito de todo ser humano de viver “com dignidade e desenvolver-se plenamente”. No documento, sob o título de”Fratelli tutti” (Todos irmãos), o pontífice denunciou “o vírus do individualismo” e as desigualdades agravadas pelas consequências da pandemia de covid-19.

Em sua nova encíclica, escrita em espanhol, o pontífice afirma que a especulação financeira “com o lucro fácil como objetivo fundamental continua provocando estragos”. O pontífice condenou o “dogma neoliberal”, um “pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas diante de qualquer desafio que se apresente”.

Para o papa Francisco, a fragilidade dos sistemas mundiais diante das pandemias evidenciou que “nem tudo se resolve com a liberdade de mercado”.

“O vírus do individualismo radical é o vírus mais difícil de derrotar”, disse. “É possível aceitar o desafio de sonhar e pensar em outra humanidade. É possível desejar um planeta que assegure terra, teto e trabalho para todos”, defendeu.

No documento de 84 páginas, Francisco retoma os temas sociais abordados ao longo de sete anos e meio do pontificado e reflete sobre um mundo desigual afetado pelas consequências da pandemia de coronavírus.

“Vimos o que aconteceu com as pessoas mais velhas em alguns lugares do mundo por causa do coronavírus. Não tinham que morrer assim (…) cruelmente descartados”, lamentou.

Francisco pediu uma nova ética nas relações internacionais. “Uma sociedade fraternal será aquela que conseguir promover a educação para o diálogo com o objetivo de derrotar o ‘vírus do individualismo radical’ e permitir que todos deem o melhor de si mesmos”.

O pontífice também falou sobre a dívida externa dos países que “deve ser paga, mas sem prejuízo ao crescimento e subsistência dos países mais pobres”.

No documento, o pontífice pede ainda o diálogo e defende novos caminhos para alcançar a reconciliação entre os povos.

Ele afirma ainda que “muitos ateus cumprem melhor a vontade de Deus que muitos crentes”, em uma espécie de advertência aos muitos políticos de todos os continentes que se sentem “autorizados por sua fé a apoiar diversas formas de nacionalismos fechados e violentos, atitudes xenófobas, desprezos ou inclusive maus-tratos aos que são diferentes.”

Em um momento do texto, falando sobre como diferentes culturas devem conviver, o pontífice fez referência à canção “Samba da Bênção”, de Vinicius de Moraes: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”.

Fonte: http://psb40.org.br

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